Filosofia de Bar

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O tempo é uma linha.

A vida, em cima da linha do tempo, é uma cadeia de sobes e desces, feito noite e tardinha. Nos sobes e desces da vida, então, não esquece de que o ponto neutro é o tempo. É nele onde tudo começa e onde tudo termina. Onde alegrias viram pó e, tristezas, volta por cima. Onde o colecionador se dá conta de que coleciona (talvez) porque é vazio. Onde o morno é esquecido porque gente de verdade tem necessidade de quente – ou frio. Onde a tolerância fica pálida ou encurta o pavio. Onde a iniciativa que falta samba na roda da insegurança, sobra na curva do rio. Porque o tempo, feito algoz, leva na correnteza veloz e logo o Ter vira Tinha. Aliás, esqueça o ter: o importante é ser; porque se agora vinte, amanhã quarenta. Aumenta. ⠀

Mas o tempo, meu bem, é uma linha.

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Metafísica

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Ei, você ⠀

Eu não quero falar nada banal apenas porque Dezembro chegou. Eu não quero dizer frases como “ final de ciclo” ou qualquer coisa clichê. Não quero nada que sintetize o conceito de fim. Ou de aceitação elegante do fim.

Ei, você, tão assertivo: saiba que mesmo no fim, eu não estou completa. Eu nunca estou. É um erro dizer que estamos inteiros uma vez que nunca paramos de aprender. Os aprendizados são fluidos como água corrente, como estrada em linha reta. Eles são inesgotáveis na medida em que o corpo dura e incalculáveis na medida em que a alma passeia pelo espaço-tempo. O aprendizado flutua. Ele é generoso e disponível como uma fonte que jorra. Dela, bebe quem quiser.

Ei, você, tão organizado: minha vida não é um calendário. Meu corpo, embora tenha fases, não fica à mercê da imprevisibilidade delas. Na vida, pelo contrário, eu preciso caminhar como um ser integral, uma unidade. Como uma cadeia que consegue integrar tudo que existe em mim, mas também o todo que me conduz. É feito o cérebro e as suas sinapses, sabe? Feito eletromagnetismo. Engraçado: eu sempre achei que a física, extraordinária, filosofa com tudo.

Mas eu sou metafísica. Ou somos, todos. Sou infinita. E no caso de agora, sou como uma nebulosa carregada de estrelas já em seus momentos finais. As estrelas esmaecem e eu as abrigo assim como acolho na memória tudo o que – de algum modo – deixa de ser. E tudo o que por acaso se esvai (os dias, os anos, as paixões) logo se dilui no fluxo do que aprendo.

E por isso, delicadamente, me torno quem sou.

Ei, você. Que surgiu numa manhã de Sábado, sorriu e do seu jeito cauteloso, cuidou: obrigada. Se nos tocamos, você nunca será invisível. Se pude enxergar a sua sensibilidade meio encoberta e ferida pela vida, para mim as suas defesas sempre serão respeitadas como a espada que todo antigo guerreiro precisa carregar. Se você tão pacientemente compreendeu os meus excessos na escrita, então eu não lhe fui falta. E se até breve, até o próximo ano ou vida, talvez não importe. Porque já passamos um pelo outro.

E não de um modo romântico, mas talvez melhor – honesto –, você disse que eu sempre poderia contar com você.

Céu de plástico

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Eu nunca fui embora. Não, eu nunca fui. Talvez você queira acreditar nisso, agora. Talvez você precise. Seja para preservar essa mania, muito sua, de fazer poesia com a dor. Ou, seja para passar por ela somente para sentir o efeito da catarse depois; o sabor da hóstia divina umedecendo no céu da boca; um mecanismo para tentar renascer em meio ao caos. Você escolhe passar por cenários negros, eu sei, e quer fazer disso algo cósmico, luminoso.

Você quer vomitar estrelas.

Eu nunca fui embora. Só que a poesia da minha suposta partida, para você, teve mais valor do que a já conhecida paz da minha permanência. Você se encantou pelo vazio. Talvez porque seja dessa forma, dramática e silenciosa, que acontece nos filmes e nos livros. A solidão chocante, o abandono inesperado, tornam-se apenas cenas de boa fotografia para o protagonista chorar diante do espelho com o lápis borrado; encolhido na cama ou no chuveiro. Todas essas pequenas catástrofes são lindas porque são melancólicas, heroicas. E depois do maquiado desespero, deixar a pessoa seguir é só mais um dilema o qual você se propõe para bater palmas por sua própria superioridade. É um ato de elevação moral, não é?

Não, não é.

Amar é deixar ir: dito por um covarde e repetido por todos os outros. Ouvi isso em algum filme de comédia romântica e a ironia continua sendo a de que não há qualquer piada nessa conclusão, nem de pretensão romântica. Só a crua realidade. Amar não é deixar ir – a menos que a outra parte oprima você, fira você ou tenha concluído, realmente, um ciclo com você. Fora isso, deixar ir é medo. É preguiça emocional. Relações são entoadas pelo canto do diálogo, pelo brilho da clareza, pelos ajustes do sacrifício. Quem ama, aposta. Vai até o fim.

Eu nunca fui embora. E ao contrário de você, não construí um sepulcro de proposital silêncio para obter de volta um grito, um gesto de atenção. Eu não nos condicionei a um capricho. Então seja homem, ou mulher – já que no fim, almas não têm gênero – e pare de repetir sublimações. Reescreva com honestidade essas suas mensagens e entrelinhas que, hora ou outra, os meu olhos alcançam. Seja firme, bote para dentro o grosso mingau da verdade: a falta de iniciativa e apatia que nos trouxe até aqui. Vomite o feio, o buraco negro.

Porque as estrelas já não vão trazer nenhuma beleza para esse céu de plástico.

Eu nunca fui embora. Mas diante das evasivas mornas, me deixei esfriar. Só por isso, agora eu me sinto pronta para escrever: na absoluta e implacável versão racional de mim. Recolhi o que havia de bom no processo, passei por momentos, reconstruí e retomei um bocado de coisas que passaram desde o cuidado com a organização do meu ambiente até a logística das minhas posturas. Fiz algumas mea-culpas, outras autocríticas, estabeleci metas – tive a decência de as cumprir. E então fui me sentindo mais perigosamente próxima de quem eu devo ser. O processo continua, inclusive. E não para ser a minha melhor versão com alguém.

Independente de quem está ou chegue, eu me tenho. E você sempre soube disso.

Eu nunca fui embora. Ter a gratidão pela consciência desse fato me tornou ainda mais forte diante da liquidez do mundo, das pessoas. E para não dizer que não falei de flores, o que sinto falta é das tantas vezes em que a sua aura mística sobrepunha a idiotice humana, tão estreita e egoísta; espalhando então cor, bondade e intuições. Essa é a sua real essência: a mesquinhez e a dureza não combinam com você. Torço para que você não os incorpore. Do que sinto falta, ainda, é do compartilhamento de segredos absurdos ou de repetir banalmente aquela história tragicômica de quando pensamos que iríamos parar na diretoria daquele lugar. Ainda guardo o seu exagero de cartas naquela malinha surrada, sob um envoltório de papel manteiga. Ainda sorrio, às vezes. Ainda me lembro. Por enquanto, mantenho essa grandeza.

Mas, não sei o que tudo isso significa. Isso poderia significar alguma coisa?

“Nada vai embora”.

Moral eleitoral

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Minha tendência é “existencializar” as coisas. Não tem jeito. Não seria diferente na hora de falar sobre política também. Talvez a psicanálise (velhinha e muito sábia) que hoje estudo, me sustente nessa mania de investigar, esmiuçar e martelar o vidro do óbvio. Detesto o óbvio. Mesmo! Desconfio, com todas as rugas na testa, de quem se entrega, embriagadamente, a uma só versão ou cor de si mesmo. De quem é conceitual demais, “aquilo” demais. Ou de quem encaixa as pessoas nessa tal idiotice monocromática. Acontece, na real, que não existe um purismo em nossa essência. Nós somos mistura! E pronto. Inclusive, uma coisa curiosa é que quando eu era criança, meu sonho era ser arqueóloga e explorar os mistérios do Egito. Isso se encaixa nessa divagação porque, por nunca ter abandonado essa faceta, via de regra eu preciso me perguntar: “O que está por trás disso?; O que está embaixo?; Será que é isso mesmo?; Quem fez?; Que valor tem?; Por quê?”. A minha forma de compreender o mundo sempre precisou ir além dos véus.

Nos rescaldos dessa amargurada eleição, talvez um dos meus últimos pitacos seja também uma reflexão meio filosófica. E, paciência. Eu não desejo que ninguém me aplauda ou que embarque na minha. Aliás, estou abandonando esse luxo. Enfim: a ironia desse cenário que causou tantos laços desfeitos, medo e agonia, é que a maioria das pessoas endossou a ideia de querer mudar a humanidade quando poucas coisas fizeram para mudar a si mesmas. A pergunta que fica no ar, então, é: para mudar um todo é necessário, antes, mudar o quê? Ou quem?

Pois é. A saída, galera, é pra dentro.

Stand Out

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Com algumas pessoas, não haverá diálogo. Não haverá jeito. Não acontecerá uma troca madura, não haverá uma relação de clareza. Não haverá. A compreensão a respeito do universo do outro é uma virtude, mas a comunicação direta com ele não é um estado obrigatório. E, na verdade, alguns seres humanos são tão voltados para as suas próprias órbitas que nem mesmo farão questão dessa síntese. Algumas vezes por preguiça emocional ou intelectual, outras porque nunca chegaram a experimentar convivências saudáveis; estão em eterno estado de choque, remoendo traumas, muros, cismas. Outras vezes, ainda, será por simplesmente – nada. E é isso. O vazio existe. O vazio do outro em relação a você ou a um todo, existe. Encaremos o vazio. Encaremos porque ao fazermos isso, tomamos consciência. E ao tomarmos consciência, nos libertamos disso. É real. Não, ninguém é obrigado a não-ser vazio diante de você. Mas você também não é obrigado a permanecer no vazio alguém.

Pense a respeito do que você permite. Delimite as suas couraças. Eduque o outro a respeito de como você deve ser tratado: sem problemáticas, sem infantilidades, sem jogos. O oposto disso não é só desgastante, é extremamente chato. Não embarque na chatice alheia. No tédio da inoperância interpessoal. No fim, é bem provável que você acabe descobrindo que o complexo não estava contigo.

Relaxe, respire. E caminhe.

Para sentir, é preciso ser honesto

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Vibrar amor é um processo bem mais amplo do que apenas repetir mantras de amor. É muito mais fundo, menos banal, menos programado. Cada um precisa de um gancho particular para dar significado ao que sente, é claro, e sentimentos não são besteiras: eles confundem, atordoam, salvam ou não. São abstratos. O problema, no entanto, não é achar o rótulo ou a lógica do sentir. Nunca foi.

O problema é aplicar a lógica.

Hoje, artificializamos a paz, o amor-próprio, a empatia, a resiliência. Alteramos o conceito de sentir para uma versão mais descolada do sentir: uma mais engajada e enxuta. Essa versão pode aparecer em caixas bem editadas, na forma das poesias de manteiga do Instagram. Ela pode estar inserida nas falas ideológicas como uma muleta para oportunizar a simpatia das massas. Ela pode estar diluída nos discursos de gente que clama por responsabilidade afetiva, mas que, perdidas em suas vias de mão única, não sabem enfrentar decepções muito embora decepcionem. Pedem abertura, mas vivem cercadas por escudos. E na prática não possuem responsabilidade alguma.

Propagar frases de efeito por aí, pílulas da boa vibração, não é algo ruim. Não é inválido falar do bem. Pelo contrário. Só que compartilhar nem sempre é compactuar. Vibrar amor e tudo o que varia dele é um processo que requer honestidade, construção e entrega; não somente retórica ou alguma tendência para o sentimentalismo. Emoções que caminham nesse faixa, para caber e durar, não se valem de modismos, não são sazonais. Elas estão mais além do que as hashtags, do que as fotos conceituais e suas legendas positivas, do que os textinhos, textões ou até do que bandeiras políticas de causas passageiras. E se tem algo que aprendi nessa sucateada trajetória virtual é que tudo é, efetivamente, passageiro. Quando a febre coletiva vai embora, poucos prestam atenção em qual realmente foi a doença.

Ainda nessas épocas sombrias de polarização, a quantidade de gente que se torna nobre, revolucionário, cientista, político, poeta, mártir, mago – é enorme. Os ânimos afloram. Uma espécie de megalomania se instala. São muitos coelhos saindo da cartola e seria ótimo se a mágica não parasse por aí. Se posicionar é legal. É necessário. Só que o tempo passa e as esquinas da web sempre voltam aos seus confins empoeirados, analógicos quase. É uma gracinha aqui, uma declaração ali, uma série nova acolá. Nas ruas, não muito diferente, o glamour da conscientização está alhures, menos nas próprias ruas. As pessoas prosseguem em suas bolhas de solidão, desrespeito no trânsito, fast-food, cafeína, relações tóxicas, acidentes, câmeras de celular apontadas para o acidente: pouca ajuda.

Emanar amor e empatia é um processo pra lá de fundamental, sim, mas interno. Contemplativo. Ele não está exposto, não se autopromove, não incita ninguém a se proclamar guru da boa vontade. Esse processo não está nos livros de Maria Ribeiro ou de Magiezi. Não está sequer na moda. Aliás, é brega. É não-cool, é démodé. Emanar amor é coisa de gente doida e desprendida. Gente que tem bravura para mergulhar nas entranhas de si e que doa, sem jogos desnecessários, o tesouro que encontra por lá. É gente que reflete e não utiliza a própria carência com oportunismo, pois sabe se dividir e preservar a equidade com as partes de um todo que lhe cerca. É gente que absorve, não suga. Que soma. Que busca ou promove mudanças, não apenas as prega. Gente que está disposta a desconstruir o amor egocêntrico para exercitar, de fato, o amor-próprio: aquele que começa em você, mas não termina em você. Ele flui.

Não é bem uma novidade, mas existe vida além da sua concha.

Energia gera energia

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Hoje eu acordei me sentindo grata. O dia amanheceu nublado, se desfazendo em gotas: uma metáfora de quê? Para quê? Na realidade, eu sempre gostei de chuva e frio. O mundo se torna mais acolhedor, sábio. Ou sou eu?

Eu me sinto preparada. Entre todas as imagens mentais que nutro como desejos, entre todas as escolhas que flutuam sobre mim e que podem me levar até os meus objetivos e estado de espírito desejados, eu relaxo e me deixo boiar, tranquila. Porque elas me pertencem. São o meu oceano de possibilidades.

E eu as mereço.

Hoje eu acordei me sentindo grata. E não há ansiedade na gratidão. Não há culpa. Nem medo. A gratidão é onipresente, portanto se estende até todas as instâncias de tempo, inclusive o futuro. Sou grata pelo o que irá acontecer; pela realidade que delicadamente teço, crio.

E vivo.

Fade out

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Estou ajustando o tom, pesando as medidas. Estou esvaziando como um pulmão em seu arquejo final. Em meu último sopro, suspiro. E não sou mais a mesma.
Estou perdendo moléculas, mas nem por isso estou rasa. É como uma espécie de abandono necessário e que se estende por todas as esferas da minha vida. Porque eu não estou somente pronta para ir, estou pronta para deixar ir. Abdicar.
Abrir mão pode ser um alívio quando o preço que se paga para ter é maior do que o valor do que retorna. E com as relações não é diferente. É sábio esmaecer, eu penso. Quando não há mais nada, é sábio esmaecer. Esmaecer significa evaporar com elegância, suavemente. Como um fade out de cinema. E não voltar mais.

Estou varrendo o som, esquecendo as vozes, os risos, trocando os traços dos rostos por imagens borradas, fantasmagóricas. É uma decisão minha. E por um longo período eu tive tanto medo desse meu próprio esquecimento gélido, que no caminho esqueci da dor maior que é se doar. E não ser. Ou ser vazio.
Mas, tudo bem. Eu não condeno as ausências porque sou a maior ausência que conheço. A mais funda, a mais radical. Eu sou casada com a impermanência. Sou metamorfose. E um homem que amo me ensinou justamente o conceito da onipresença: amar é sentir – não ver, tocar ou estar. Essa é a única definição coerente do amor. Amar é sentir. E sentimentos não são permanentes.

Sentimentos são momentos.

O momento é o de polir a minha própria alma. Se trata de uma faxina, eu percebo. Muitas coisas embranquecem ou escorrem pelo ralo, e eu deixo. Porque na imprudência do descaso, tudo se vai. Inclusive as culpas, as torturas que não mereço, as que mereço – mas que já chega. Tudo se vai. Aqueles que foram só por conveniência, os que foram inconveniência ou só incompletude. As injustiças, os olhares atravessados, a má educação, o nó na garganta, a fumaça, a noite mal dormida, o bife mal-passado, o leite derramado, o cinismo. Tudo se vai.

E está tudo bem. Eu prossigo completa.

Porque, veja: para mim, a escrita sempre fica. E (me) salva.

Não é saudade

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Os finais são sempre mais bonitos. Foi o que pensei naquele momento em que o sol definhava em meados de Julho. Explosões de laranja e vermelho escorriam por entre as nuvens ralas, no céu: uma pintura natural que eu jamais capturaria.
O celular estava com a memória cheia, então eu me esforcei para fotografar na minha própria. Às vezes a imagem vem. Às vezes eu consigo sentir apenas aquela euforia particular de quando eu estava sentada no banco de trás do carro, assistindo o poente se distanciar através da janela fumê.

Outras vezes, nada. Só um aperto: surdo e mudo. Mas não é saudade.

Eu vou comprar um trailer e viajar pelo mundo. Foi o que pensei enquanto caminhava na beira de uma praia sem ondas. As pessoas estavam letárgicas em suas cadeiras desconfortáveis de sol, mas isso não parecia ser um incômodo. Elas apenas absorviam o mormaço com a gratidão típica de quem atravessa invernos paralisantes. Seus olhares de observação vinham acompanhados de uma admiração estrangeira que fazia com que eu me sentisse em casa, tanto que eu não catei nenhuma daquelas conchas esquecidas pela maré; nem mesmo as mais exóticas. Eu não senti que devia apanhar qualquer lembrança porque eu não precisaria lembrar, simplesmente. Aquilo tudo era meu.

Pertencer não é um estado, é um sentimento. E quem pertence não tem saudade.

Eu acho que já vivi aqui. Foi o que senti assim que coloquei os pés naquele lugar onde me hospedei. As pedras que erguiam a propriedade pareciam falar em um dialeto que só alguma parte muito antiga da minha alma podia entender, mas que o meu corpo sentia. Quando tudo é identificação não sobra muito espaço para o raciocínio lógico. A emoção fala. E você flui sem os constrangimentos próprios da incoerência. Por isso me permiti ouvir os sussurros oprimidos dos fantasmas, aos arredores. Desci e subi as escadas como se fosse dona de cada degrau. Andei pelos salões e salas passando a mão em cada móvel velho como se pudesse ter acesso às histórias através do meu toque. Como se os meus poros fossem brechas abertas para mergulhar em um passado indefinido, suave, distante. Entrar em contato é resgatar a si mesmo. E quem resgata, liberta. Por libertar, pertence.

Invariavelmente, eu retorno para tudo aquilo em que eu toco.

Então, não há saudade.