Gentilezas

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Acho que a maneira mais bonita de aplacar a ansiedade é se parabenizando por até onde você chegou, hoje. Exatamente como se incentiva uma criança aprendendo a andar, comprometida com a sua vontade de dar passos maiores, depois giros, saltos. Só que todo ballet precisa antes do amadurecimento dos joelhos. E isso é uma metáfora ampla: a vida também é uma dança.

Alcançar a versão final é sempre uma expectativa, eu fico pensando. Está sempre no futuro. E o futuro é escorregadio porque ele se vai na medida em que se vive; no compasso da respiração. Um descuido, um arquejo, e o amanhã já se tornou tardio. Já se tornou poeira. O que fica são os esboços do que a gente vai desenhando no processo, e pensar nesse ciclo ou pode te paralisar de medo ou te impulsionar até o próximo traço. – Não é bem uma novidade. Mas sempre esquecemos que o resultado desse dilema depende da gentileza de escolha.

Eu nunca me vi como uma pessoa flexível comigo mesma, por exemplo. Foi algo que percebi tarde, inclusive. Isso significa que olhando para o prisma da minha vida, houve mais autocrítica do que complacência de mim para mim. Só que empatia não se aplica apenas ao outro; ela se estende também para o centro do próprio peito – não do umbigo. Ela é necessária na primeira pessoa do singular, sim. De forma que contemplar nossos pequenos feitos, é não só um reforço ou uma forma de alívio, mas uma construção do mapa de quem somos nós. ⠀

Não há como saber onde estamos chegando, ou sequer o que queremos achar no final, se durante o percurso passamos voando. Seja pela ânsia de dar resultados, de provar eficiência ou qualquer outra coisa. Se esse virtualismo de hoje nos encoraja apenas à correr para mostrar algo, o ritmo da vida real precisa ir na contramão. O que encontramos, o que descobrimos, o que conseguimos, por mais simples que seja? É preciso atenção. Porque somos o ajuste entre todas as partes de um todo, inclusive em nossa biologia particular, em nosso corpo. Somos colcha de retalhos. E isso, cada parte disso, importa.

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Lá (e ele)

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De costas viradas para mim, o vi escolher as palavras com cuidado. A musculatura esguia, de gente que preza pela dignidade, estava agora relaxada. As mãos, pousadas entre o papel e o lápis de ponta gasta, se tencionavam hora ou outra. A boca se movimentava em uma espécie de leitura muda, como fazem as crianças distraídas em seus livros com gravuras coloridas.

Fotografei aquela cena: literal e metaforicamente.

Não era só a beleza do momento. Não era apenas a estética impressa no conceito daquele corpo físico: mãos, costas, intelecto, óculos, sardas. Era também o fato de eu me adequar a tudo aquilo. De ser aceita. Minha presença, ali, era acolhida em meio ao ato de escrever, que é sempre muito íntimo para qualquer um. Minha observação silenciosa, atenta e contemplativa era bem-vinda. Ela se misturava junto ao processo dele, criativo, como se em um movimento de reciprocidade pudesse (da mesma forma) me despertar arte.

Abracei os meus joelhos sobre os peitos e me deixei estar, tranquila. Se a minha vida fosse um filme, eu a deixaria terminar nessa claquete. Exatamente nela, onde há o som curto e seco das letras sendo riscadas no papel. Ou do vento, soprando na cômoda as embalagens vazias de chocolate. Ou tremeluzindo a poeira dos cantos. Ali, onde há o sol entrando pelas frestas da cortina, pintando as minhas coxas nuas. Ali, onde existe o eco do nosso dialeto bem particular.

Eu deixaria que todos os finais continuassem se desenhando assim, com tom de reticências: com sentimento de encaixe e familiaridade. Eu não mexeria em nada desse cenário, absolutamente. E manteria todos aqueles chinelos e blusas masculinas grandes demais para mim. Bem como os copos de vinho ou café, bebidos pela metade e com a desculpa de que iríamos lavar a louça logo. Eu manteria o abajur amarelo que não tem nada a ver com aquele quadro. E a almofada com desenho de girassol.

Eu deixaria todas as singularidades no lugar, repousando nessa existência altiva, descomplicada, sem travas e artifícios. E não somente porque eu participo dela.

É porque não se mexe no que (e em quem) vai se tornando habitat.

Antes, seja sua

Casal.

(Se) ter é um processo longo e desafiador. Quem nasce mulher, inclusive, seja no corpo ou na essência, reconhece isso ainda mais cedo. Não se trata de uma questão conceitual, apenas. Não se trata de ser ativa ou menos ativa diante das causas, das lutas ou das resistências. Não se trata de se tornar uma caricatura do que já somos: gênero feminino. Nós dizemos que identificamos primeiro a importância do processo de pertença à nós mesmas – e seguimos na busca da reafirmação diária dele – porque sempre nos foi ensinado o resguardo quando, na verdade, ardíamos. Sempre ardemos.

É árduo fingir não arder. É enlouquecedor se conter para caber, cobrir para não sofrer. Sobretudo porque isso não é algo dito, mas sentido, ainda, nas minúcias das falas, dos gestos, das represálias disfarçadas. Por isso identificamos a relevância de nossa liberdade e aprendemos a voar com ela, a grita-la, a avançar, a questionar. Por isso, pessoas que não compreendem o desserviço de tolher, vão perdendo a voz e vez. Vão caindo no ostracismo assustador ao tornarem-se versões mais encolhidas de si mesmas.

Quando a energia do mundo vibra na direção de um determinado despertar, apostar no retrógrado é andar na contramão rezando para não morrer de colisão frontal. É aceitar ser engolido pelo tempo. Liberdade, na verdade, é um conceito que precisa vir como acompanhante de tudo: amor, parceria, amizade; e que não necessariamente significa falta de responsabilidade afetiva ou desinteresse. A liberdade é responsável justamente porque não deseja anular o outro em sua potencialidade apenas para que ela possa existir. A liberdade coexiste. Ela é plena, madura saudável, boa, certa. E com ela não só temos o outro de bom grado, nós também (nos) temos.

Filosofia de Bar

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O tempo é uma linha.

A vida, em cima da linha do tempo, é uma cadeia de sobes e desces, feito noite e tardinha. Nos sobes e desces da vida, então, não esquece de que o ponto neutro é o tempo. É nele onde tudo começa e onde tudo termina. Onde alegrias viram pó e, tristezas, volta por cima. Onde o colecionador se dá conta de que coleciona (talvez) porque é vazio. Onde o morno é esquecido porque gente de verdade tem necessidade de quente – ou frio. Onde a tolerância fica pálida ou encurta o pavio. Onde a iniciativa que falta samba na roda da insegurança, sobra na curva do rio. Porque o tempo, feito algoz, leva na correnteza veloz e logo o Ter vira Tinha. Aliás, esqueça o ter: o importante é ser; porque se agora vinte, amanhã quarenta. Aumenta. ⠀

Mas o tempo, meu bem, é uma linha.

Metafísica

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Ei, você ⠀

Eu não quero falar nada banal apenas porque Dezembro chegou. Eu não quero dizer frases como “ final de ciclo” ou qualquer coisa clichê. Não quero nada que sintetize o conceito de fim. Ou de aceitação elegante do fim.

Ei, você, tão assertivo: saiba que mesmo no fim, eu não estou completa. Eu nunca estou. É um erro dizer que estamos inteiros uma vez que nunca paramos de aprender. Os aprendizados são fluidos como água corrente, como estrada em linha reta. Eles são inesgotáveis na medida em que o corpo dura e incalculáveis na medida em que a alma passeia pelo espaço-tempo. O aprendizado flutua. Ele é generoso e disponível como uma fonte que jorra. Dela, bebe quem quiser.

Ei, você, tão organizado: minha vida não é um calendário. Meu corpo, embora tenha fases, não fica à mercê da imprevisibilidade delas. Na vida, pelo contrário, eu preciso caminhar como um ser integral, uma unidade. Como uma cadeia que consegue integrar tudo que existe em mim, mas também o todo que me conduz. É feito o cérebro e as suas sinapses, sabe? Feito eletromagnetismo. Engraçado: eu sempre achei que a física, extraordinária, filosofa com tudo.

Mas eu sou metafísica. Ou somos, todos. Sou infinita. E no caso de agora, sou como uma nebulosa carregada de estrelas já em seus momentos finais. As estrelas esmaecem e eu as abrigo assim como acolho na memória tudo o que – de algum modo – deixa de ser. E tudo o que por acaso se esvai (os dias, os anos, as paixões) logo se dilui no fluxo do que aprendo.

E por isso, delicadamente, me torno quem sou.

Ei, você. Que surgiu numa manhã de Sábado, sorriu e do seu jeito cauteloso, cuidou: obrigada. Se nos tocamos, você nunca será invisível. Se pude enxergar a sua sensibilidade meio encoberta e ferida pela vida, para mim as suas defesas sempre serão respeitadas como a espada que todo antigo guerreiro precisa carregar. Se você tão pacientemente compreendeu os meus excessos na escrita, então eu não lhe fui falta. E se até breve, até o próximo ano ou vida, talvez não importe. Porque já passamos um pelo outro.

E não de um modo romântico, mas talvez melhor – honesto –, você disse que eu sempre poderia contar com você.

Céu de plástico

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Eu nunca fui embora. Não, eu nunca fui. Talvez você queira acreditar nisso, agora. Talvez você precise. Seja para preservar essa mania, muito sua, de fazer poesia com a dor. Ou, seja para passar por ela somente para sentir o efeito da catarse depois; o sabor da hóstia divina umedecendo no céu da boca; um mecanismo para tentar renascer em meio ao caos. Você escolhe passar por cenários negros, eu sei, e quer fazer disso algo cósmico, luminoso.

Você quer vomitar estrelas.

Eu nunca fui embora. Só que a poesia da minha suposta partida, para você, teve mais valor do que a já conhecida paz da minha permanência. Você se encantou pelo vazio. Talvez porque seja dessa forma, dramática e silenciosa, que acontece nos filmes e nos livros. A solidão chocante, o abandono inesperado, tornam-se apenas cenas de boa fotografia para o protagonista chorar diante do espelho com o lápis borrado; encolhido na cama ou no chuveiro. Todas essas pequenas catástrofes são lindas porque são melancólicas, heroicas. E depois do maquiado desespero, deixar a pessoa seguir é só mais um dilema o qual você se propõe para bater palmas por sua própria superioridade. É um ato de elevação moral, não é?

Não, não é.

Amar é deixar ir: dito por um covarde e repetido por todos os outros. Ouvi isso em algum filme de comédia romântica e a ironia continua sendo a de que não há qualquer piada nessa conclusão, nem de pretensão romântica. Só a crua realidade. Amar não é deixar ir – a menos que a outra parte oprima você, fira você ou tenha concluído, realmente, um ciclo com você. Fora isso, deixar ir é medo. É preguiça emocional. Relações são entoadas pelo canto do diálogo, pelo brilho da clareza, pelos ajustes do sacrifício. Quem ama, aposta. Vai até o fim.

Eu nunca fui embora. E ao contrário de você, não construí um sepulcro de proposital silêncio para obter de volta um grito, um gesto de atenção. Eu não nos condicionei a um capricho. Então seja homem, ou mulher – já que no fim, almas não têm gênero – e pare de repetir sublimações. Reescreva com honestidade essas suas mensagens e entrelinhas que, hora ou outra, os meu olhos alcançam. Seja firme, bote para dentro o grosso mingau da verdade: a falta de iniciativa e apatia que nos trouxe até aqui. Vomite o feio, o buraco negro.

Porque as estrelas já não vão trazer nenhuma beleza para esse céu de plástico.

Eu nunca fui embora. Mas diante das evasivas mornas, me deixei esfriar. Só por isso, agora eu me sinto pronta para escrever: na absoluta e implacável versão racional de mim. Recolhi o que havia de bom no processo, passei por momentos, reconstruí e retomei um bocado de coisas que passaram desde o cuidado com a organização do meu ambiente até a logística das minhas posturas. Fiz algumas mea-culpas, outras autocríticas, estabeleci metas – tive a decência de as cumprir. E então fui me sentindo mais perigosamente próxima de quem eu devo ser. O processo continua, inclusive. E não para ser a minha melhor versão com alguém.

Independente de quem está ou chegue, eu me tenho. E você sempre soube disso.

Eu nunca fui embora. Ter a gratidão pela consciência desse fato me tornou ainda mais forte diante da liquidez do mundo, das pessoas. E para não dizer que não falei de flores, o que sinto falta é das tantas vezes em que a sua aura mística sobrepunha a idiotice humana, tão estreita e egoísta; espalhando então cor, bondade e intuições. Essa é a sua real essência: a mesquinhez e a dureza não combinam com você. Torço para que você não os incorpore. Do que sinto falta, ainda, é do compartilhamento de segredos absurdos ou de repetir banalmente aquela história tragicômica de quando pensamos que iríamos parar na diretoria daquele lugar. Ainda guardo o seu exagero de cartas naquela malinha surrada, sob um envoltório de papel manteiga. Ainda sorrio, às vezes. Ainda me lembro. Por enquanto, mantenho essa grandeza.

Mas, não sei o que tudo isso significa. Isso poderia significar alguma coisa?

“Nada vai embora”.

Moral eleitoral

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Minha tendência é “existencializar” as coisas. Não tem jeito. Não seria diferente na hora de falar sobre política também. Talvez a psicanálise (velhinha e muito sábia) que hoje estudo, me sustente nessa mania de investigar, esmiuçar e martelar o vidro do óbvio. Detesto o óbvio. Mesmo! Desconfio, com todas as rugas na testa, de quem se entrega, embriagadamente, a uma só versão ou cor de si mesmo. De quem é conceitual demais, “aquilo” demais. Ou de quem encaixa as pessoas nessa tal idiotice monocromática. Acontece, na real, que não existe um purismo em nossa essência. Nós somos mistura! E pronto. Inclusive, uma coisa curiosa é que quando eu era criança, meu sonho era ser arqueóloga e explorar os mistérios do Egito. Isso se encaixa nessa divagação porque, por nunca ter abandonado essa faceta, via de regra eu preciso me perguntar: “O que está por trás disso?; O que está embaixo?; Será que é isso mesmo?; Quem fez?; Que valor tem?; Por quê?”. A minha forma de compreender o mundo sempre precisou ir além dos véus.

Nos rescaldos dessa amargurada eleição, talvez um dos meus últimos pitacos seja também uma reflexão meio filosófica. E, paciência. Eu não desejo que ninguém me aplauda ou que embarque na minha. Aliás, estou abandonando esse luxo. Enfim: a ironia desse cenário que causou tantos laços desfeitos, medo e agonia, é que a maioria das pessoas endossou a ideia de querer mudar a humanidade quando poucas coisas fizeram para mudar a si mesmas. A pergunta que fica no ar, então, é: para mudar um todo é necessário, antes, mudar o quê? Ou quem?

Pois é. A saída, galera, é pra dentro.

Stand Out

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Com algumas pessoas, não haverá diálogo. Não haverá jeito. Não acontecerá uma troca madura, não haverá uma relação de clareza. Não haverá. A compreensão a respeito do universo do outro é uma virtude, mas a comunicação direta com ele não é um estado obrigatório. E, na verdade, alguns seres humanos são tão voltados para as suas próprias órbitas que nem mesmo farão questão dessa síntese. Algumas vezes por preguiça emocional ou intelectual, outras porque nunca chegaram a experimentar convivências saudáveis; estão em eterno estado de choque, remoendo traumas, muros, cismas. Outras vezes, ainda, será por simplesmente – nada. E é isso. O vazio existe. O vazio do outro em relação a você ou a um todo, existe. Encaremos o vazio. Encaremos porque ao fazermos isso, tomamos consciência. E ao tomarmos consciência, nos libertamos disso. É real. Não, ninguém é obrigado a não-ser vazio diante de você. Mas você também não é obrigado a permanecer no vazio alguém.

Pense a respeito do que você permite. Delimite as suas couraças. Eduque o outro a respeito de como você deve ser tratado: sem problemáticas, sem infantilidades, sem jogos. O oposto disso não é só desgastante, é extremamente chato. Não embarque na chatice alheia. No tédio da inoperância interpessoal. No fim, é bem provável que você acabe descobrindo que o complexo não estava contigo.

Relaxe, respire. E caminhe.

Para sentir, é preciso ser honesto

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Vibrar amor é um processo bem mais amplo do que apenas repetir mantras de amor. É muito mais fundo, menos banal, menos programado. Cada um precisa de um gancho particular para dar significado ao que sente, é claro, e sentimentos não são besteiras: eles confundem, atordoam, salvam ou não. São abstratos. O problema, no entanto, não é achar o rótulo ou a lógica do sentir. Nunca foi.

O problema é aplicar a lógica.

Hoje, artificializamos a paz, o amor-próprio, a empatia, a resiliência. Alteramos o conceito de sentir para uma versão mais descolada do sentir: uma mais engajada e enxuta. Essa versão pode aparecer em caixas bem editadas, na forma das poesias de manteiga do Instagram. Ela pode estar inserida nas falas ideológicas como uma muleta para oportunizar a simpatia das massas. Ela pode estar diluída nos discursos de gente que clama por responsabilidade afetiva, mas que, perdidas em suas vias de mão única, não sabem enfrentar decepções muito embora decepcionem. Pedem abertura, mas vivem cercadas por escudos. E na prática não possuem responsabilidade alguma.

Propagar frases de efeito por aí, pílulas da boa vibração, não é algo ruim. Não é inválido falar do bem. Pelo contrário. Só que compartilhar nem sempre é compactuar. Vibrar amor e tudo o que varia dele é um processo que requer honestidade, construção e entrega; não somente retórica ou alguma tendência para o sentimentalismo. Emoções que caminham nesse faixa, para caber e durar, não se valem de modismos, não são sazonais. Elas estão mais além do que as hashtags, do que as fotos conceituais e suas legendas positivas, do que os textinhos, textões ou até do que bandeiras políticas de causas passageiras. E se tem algo que aprendi nessa sucateada trajetória virtual é que tudo é, efetivamente, passageiro. Quando a febre coletiva vai embora, poucos prestam atenção em qual realmente foi a doença.

Ainda nessas épocas sombrias de polarização, a quantidade de gente que se torna nobre, revolucionário, cientista, político, poeta, mártir, mago – é enorme. Os ânimos afloram. Uma espécie de megalomania se instala. São muitos coelhos saindo da cartola e seria ótimo se a mágica não parasse por aí. Se posicionar é legal. É necessário. Só que o tempo passa e as esquinas da web sempre voltam aos seus confins empoeirados, analógicos quase. É uma gracinha aqui, uma declaração ali, uma série nova acolá. Nas ruas, não muito diferente, o glamour da conscientização está alhures, menos nas próprias ruas. As pessoas prosseguem em suas bolhas de solidão, desrespeito no trânsito, fast-food, cafeína, relações tóxicas, acidentes, câmeras de celular apontadas para o acidente: pouca ajuda.

Emanar amor e empatia é um processo pra lá de fundamental, sim, mas interno. Contemplativo. Ele não está exposto, não se autopromove, não incita ninguém a se proclamar guru da boa vontade. Esse processo não está nos livros de Maria Ribeiro ou de Magiezi. Não está sequer na moda. Aliás, é brega. É não-cool, é démodé. Emanar amor é coisa de gente doida e desprendida. Gente que tem bravura para mergulhar nas entranhas de si e que doa, sem jogos desnecessários, o tesouro que encontra por lá. É gente que reflete e não utiliza a própria carência com oportunismo, pois sabe se dividir e preservar a equidade com as partes de um todo que lhe cerca. É gente que absorve, não suga. Que soma. Que busca ou promove mudanças, não apenas as prega. Gente que está disposta a desconstruir o amor egocêntrico para exercitar, de fato, o amor-próprio: aquele que começa em você, mas não termina em você. Ele flui.

Não é bem uma novidade, mas existe vida além da sua concha.

Energia gera energia

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Hoje eu acordei me sentindo grata. O dia amanheceu nublado, se desfazendo em gotas: uma metáfora de quê? Para quê? Na realidade, eu sempre gostei de chuva e frio. O mundo se torna mais acolhedor, sábio. Ou sou eu?

Eu me sinto preparada. Entre todas as imagens mentais que nutro como desejos, entre todas as escolhas que flutuam sobre mim e que podem me levar até os meus objetivos e estado de espírito desejados, eu relaxo e me deixo boiar, tranquila. Porque elas me pertencem. São o meu oceano de possibilidades.

E eu as mereço.

Hoje eu acordei me sentindo grata. E não há ansiedade na gratidão. Não há culpa. Nem medo. A gratidão é onipresente, portanto se estende até todas as instâncias de tempo, inclusive o futuro. Sou grata pelo o que irá acontecer; pela realidade que delicadamente teço, crio.

E vivo.